Amar-te é não dar espaço à saudade

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Saudade é mais do que recordar o teu abraço. Ou, lembrar-me do sabor do teu beijo. Saudade é acordar a meio da noite sozinha e sentir-te ali comigo. Não te ver na cama e sentir as tuas mãos à volta da minha cintura.

Saudade é às três da manhã sentir-me perseguida por uma insónia, que me tortura e me rouba o sono. E num acto de loucura, vestir a primeira roupa que encontrar no roupeiro, sem me preocupar se estou bem ou mal vestida. Fechar a porta à pressa, sem verificar se apaguei as luzes, que fui acendendo por onde passei. Entrar sem saber como no carro. Lembrar-me de que nem coloquei perfume, mas a saudade já não dá tempo de volta a casa. Seguir sem rumo certo pelas ruas desertas da cidade, em que os normais dormem o sono da beleza. Enquanto eu, vou para onde a loucura me leva. De repente olhar para o número 10 de uma rua, de que nem sei o nome e saber como estou em frente da tua casa. Olhar para a porta e perceber que tu já a abriste, ainda antes de eu ter chegado. Sair do carro e não fechar a porta, tanta é a urgência em te abraçar.

Saudade é isso, esta urgência de não sentir saudade. A urgência de matar esta vontade de te beijar. Esta vontade de gritar ali mesmo à porta da tua casa que te amo loucamente. Não ter receio de acordar os teus vizinhos a meio da madrugada. Voltarmos juntos para fechar a porta do carro, perdendo a conta ao número de beijos que demos pelo caminho. Regressar ao teu colo, sem ter a noção de ter subido os degraus da escada, por estar distraída com as promessas de amor que te ia fazendo ao ouvido.

Saudade é amarmo-nos no teu quarto, que de repente me parece pequeno demais para o tamanho do nosso amor. Mas que importa isso, se o que quero mesmo é ficar ali no espaço apertado do teu abraço. Ficar ali a escutar o teu coração a bater no meu peito e respirar o teu ar que desenha remoinhos de paixão na minha pele.

Saudade é acordar com o cheiro da tua pele na minha roupa, que está espalhada pela casa. Sentir o perfume do nosso amor por todas as divisões e, quem sabe até no jardim lá fora. Vestir-me com o meu melhor sorriso, descer as escadas descalça, seguindo o cheiro do café que tu estás a preparar para nós dois. Sentar-me à mesa, disfarçando a minha nudez com a flor que coloco no cabelo, a rosa azul, que foste comprar na florista ao final da rua e que me querias oferecer ao pequeno-almoço.

Saudade nunca poderá um sentimento triste, porque ela me lembra que o nosso amor existe.

Saudade é não ter tempo para sentir saudade. É escutar um amo-te, ainda antes de eu ter tempo de sair para trabalhar, com a roupa amarrotada que trouxe ontem. Reparar que as calças não condizem com a camisola e que as sandálias não são o calçado perfeito para uma manhã de Inverno, mas já não me sobrar tempo para passar em casa. E sem alternativa, terei que ir trabalhar com a loucura do amor ainda estampada no meu rosto.

Saudade é receber uma mensagem tua, quando acabo de fechar a porta com um convite para que logo à noite a loucura se repita. Amar-te é isso, é não ter espaço para que existam saudades entre nós dois.

 

@angela caboz