Encontro de almas

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Ela procurava-o nas ruas movimentadas de uma cidade desconhecida.
Procurava-o no meio de uma multidão, onde todos os rostos lhe pareciam iguais.
Não se lembra se fazia frio, ou se estava um calor abrasador. Não sabe dizer que dia da semana seria, nem sequer se lembra do mês.
Para que se iria ela preocupar com esses pequenos detalhes se o que procurava era um grande amor. Para que iria continuar a pensar em pequenos nadas como aqueles em que se habituara a viver, sem que reparasse nela, se tudo o que sonhava era ter um amor que a amasse pelo que ela não mostrava a ninguém. Que importância poderia ter o clima ou calendário quando tudo o que a movia era o rasto de tudo o que lhe faltava na vida.
Hoje até poderia ser o último dia da história do mundo onde ela vivia. Podia chover de noite e dia. Podiam secar-se todos os rios e até podiam nascer aves nos jardins e flores exóticas no céu.
Nada disso a iria impedir de seguir em frente no rasto da sua intuição que lhe dizia que ele estava próximo. Estava decidida a procurar por todos os recantos naquele dia. Tinha decidido que iria até ao fim do mundo e voltaria, se preciso fosse, por ter a certeza de que iria encontrar o amor.
Os seus pés sabiam que terreno pisava, eles já estavam habituados às feridas que a vida lhes tinha feito, desenhando-lhe cicatrizes que escreviam a sua história. Nada mais ela temia, e por isso, tinha deixado o seu espaço de conforto para procurar algo que lhe pertencia, esse amor que ela ainda desconhecia.
Seguiu por ali, no rasto do amor que lhe acenava de longe, mostrando-lhe onde estava o que lhe faltava. E foi ao encontro desse sentimento que ela partiu. Havia uma ilusão que lhe vestia o coração e com um simples abraço, feito de palavras, com que sempre sonhou, seguiu a sua ilusão e foi por aí.
Deixou no seu canto amordaçada a razão, que tantas as vezes a ensurdeceu, deixando a sua alma louca. Tantas vezes a razão lhe disse que tinha nascido para sofrer e que jamais tocaria no amor. A razão que lhe jurava que o amor não queria nada com ela e que o melhor era acostumar-se ao sofrimento. Insatisfeita ela virou as costa ao certo e partiu rumo ao incerto. Se o destino lhe tinha dito em sonhos que o amor existia e esperava por ela, não seria agora que iria desistir de o encontrar.
Olhou à sua volta e o vento do desconhecido soprava-lhe contra a cara. Havia nuvens de incertezas e ondas de desespero à sua volta. O vento tinha-a arrastado para aquela estrada onde as migalhas de dúvidas lhe cobriam agora os pés.
Olhou à sua volta e a coragem disse-lhe:
– Vai em frente mulher forte, depois de dares o primeiro passo a dor desaparece!
Sim se ali estava e já lhe sentia o cheiro era porque o amor estava cada vez mais próximo dela.
Os rostos pareciam-lhe todos iguais, os corpos eram ligeiramente diferentes. Uns mais altos e outros mais baixos, uns mais gordos e outros demasiado magros.Era tudo uma questão de imagem e não era isso que ela procurava. Ela sabia que a sua intuição não a iria enganar e que quando as suas almas se olhassem nada mais os iria separar.
Deu alguns passos para a direita, depois mais alguns para a esquerda. Caminhou sem sentido pelas largas avenidas da quais nem sequer se lembra do nome. Dormiu ao relento e conversou com a noite, discutiu com a lua e pediu ajuda às estrelas. Perdeu a conta aos dias que se passaram e a fome fez-lhe esquecer muitas das suas agonias.
Procurava um corpo que fosse a imagem perfeita para o amor, um corpo ainda sem nome e sem rosto.
E mais uma vez, a vida a surpreendeu porque foi numa tarde sem sol, enquanto andava distraída por uma rua sem saída que o amor lhe apareceu à frente.
Ficou ali a olha-la enquanto ela dormitava cansada na soleira da porta de uma casa que já não tinha dono. Estava exausta de procura-lo e nem sequer reparou que a vida o tinha plantado ali à sua frente.
Acordou antes da lua ter nascido e os seus olhos verdes perderam-se na intensidade do olhar do amor que a cumprimentou, tal como ela costumava ver nos seus sonhos. Quem estava ali à sua frente não era um desconhecido qualquer, era o amor que ela procurava e que agora a observava surpreendido com a pureza do seu sentir.
Olharam-se sem falar e falaram tudo sem nada dizer. Deixaram que o destino acontecesse, tal qual estava escrito.
Amaram-se ao ritmo do amor que traziam em si desde que se conheciam. Não pensaram na felicidade, apenas quiseram viver aquela realidade.
A história um dia irá dizer se foram ou não felizes para sempre, por agora eles apenas querem viver o amor que tanto procuravam.

 

@angela caboz